E aí, beleza? Cheguei aqui na Praia do Rosa há 14 anos, quando a sofisticação que a gente vê hoje ainda estava florescendo, mas o espírito da velha PDR já me pegou. Eu vi de perto essa transformação, mas garanto: a magia do Rosa vem de muito, muito antes de qualquer pousada ou restaurante chique. É uma história de longa duração, que começa na terra, no mar e no coração das pessoas.
I. O Eco dos Primeiros Povos: Raízes de 6 Mil Anos
Praia do Rosa, para a gente, é sinônimo de paraíso, mas o chão que a gente pisa conta histórias de milhares de anos.
Muito antes de Porto Novo existir, esta região no litoral sul de Santa Catarina já era habitada. Pense em grupos que chegaram por aqui há uns 6.000 anos, os construtores dos sambaquis (aqueles montes de conchas). Esses povos antigos eram pescadores, coletores e caçadores, e o local aqui da Ponta do Porto Novo (Ibiraquera) guarda vestígios pré-históricos de artefatos líticos e até uma gravura zoomorfa de um peixe esculpida na rocha. Eles se alimentavam de moluscos em grandes quantidades e variedades, como o Anomalocardia brasiliana, que ainda hoje a gente encontra por aí.
Mais tarde, há cerca de 700 anos, o cenário foi ocupado pelos povos Tupi-Guarani, que vieram em migração da Amazônia. No litoral catarinense, eles ficaram conhecidos como Carijós. Eram um povo organizado, com agricultura (plantavam milho e mandioca) e sabiam fazer cerâmica.
Quando os navegadores europeus chegaram, estes Carijós foram descritos como "o melhor gentio da costa", por serem pacíficos e receptivos. Mas essa doçura custou caro.
II. O Legado da Pesca e a Dor da Caça
A nossa cultura, a do Rosa, é uma mistura vibrante dessa tradição indígena com a herança dos pescadores açorianos que vieram se estabelecer por aqui. A pesca artesanal é uma tradição que resiste, e a gente ainda vê as canoas de madeira, que são um símbolo local.
O município de Imbituba, onde estamos localizados, tem uma história que, por um tempo, foi bem triste para o mar. No final do século XVIII, Imbituba se tornou o local da quarta armação baleeira do Brasil, em 1796 (leia mais no Glossário). A caça à baleia-franca era intensa — a gordura delas era usada até mesmo na argamassa das construções no Rio e em São Paulo. Essa matança só terminou em 1973, e a espécie ficou à beira da extinção.
Mas a natureza, como sempre, dá a volta por cima, e o que era local de matança hoje é berçário e santuário.
III. O Nascimento da PDR: Surf, Hippies e Seu Dorvino
Por volta dos anos 60, a nossa praia, que na época se chamava "Praia do Porto Novo", era apenas uma aldeia rústica de pescadores e agricultores, sem luz elétrica ou água encanada. O nome que a gente usa hoje, que ficou famoso no mundo todo, nasceu da hospitalidade de um morador muito especial: Dorvino Manoel da Rosa.
Na década de 70, o Rosa foi descoberto por um grupo de jovens surfistas e hippies, que estavam atrás de ondas perfeitas e de um refúgio tranquilo (veja o impacto deles). Seu Dorvino, que era proprietário das terras que davam acesso à beira da praia, recebia essa galera em sua casa. Foi em referência a ele, Seu Dorvino da Rosa, que a praia começou a ser chamada de "Praia do Rosa".
A luz elétrica só chegou mesmo nos anos 80. Esse foi o nosso DNA: vida simples, ligada ao surf e à natureza.
IV. O Rosa de Hoje: Elegância Rústica e a Luta pela Preservação
Hoje, a Praia do Rosa é um destino reconhecido mundialmente, parte do seleto "Clube das Mais Lindas Baías do mundo". Aquele refúgio hippie se transformou em um destino premium de ecoturismo, onde a gente busca a "Elegância Rústica": desconectar na natureza, mas sem abrir mão do conforto e da gastronomia de alta qualidade.
O Espetáculo das Gigantes do Mar
Para mim, que moro aqui, o inverno é a nossa temporada prime. Imbituba é a Capital Nacional da Baleia-Franca, e a nossa identidade está ligada à conservação marinha. Todos os anos, de julho a novembro, a Praia do Rosa se enche de vida com a chegada das baleias-francas.
Elas vêm das águas geladas da Antártida para procriar e amamentar seus filhotes bem pertinho da nossa costa. Ver uma baleia-franca de perto é uma das experiências mais raras e bonitas que você pode ter, e é possível observá-las a olho nu, dos nossos mirantes ou mesmo de algumas pousadas na beira do mar.
A celebração desse fenômeno é o Festival da Baleia Franca, que inclui atividades culturais e palestras educativas que reforçam a consciência ambiental. É vital saber que estamos em uma Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca, e que a preservação rigorosa da espécie é o que garante o nosso diferencial turístico.
A Cultura que se Vive e se Degusta
A alma de surfista da Praia do Rosa continua forte. As ondas, principalmente no inverno, são incríveis, e a região sedia eventos como o Garopaba Surf Festival. Para quem busca agito no verão, tem o Rosa Summer, um festival de música eletrônica que atrai gente de todo canto.
E a nossa gastronomia? É um show! Ela reflete essa fusão cultural. Você encontra desde a culinária capixaba servida em panelas de barro no Restaurante Urucum, passando por pratos tailandeses no Tigre Asiático, e a culinária francesa do Bistrô Pedra da Vigia.
Seja explorando as trilhas ecológicas (como a que leva à Praia Vermelha, com suas piscinas naturais), praticando windsurf na Lagoa de Ibiraquera, ou apenas relaxando no Centrinho, o Rosa é um destino completo.
Depois de 14 anos aqui, posso te dizer: o Rosa é a prova de que a beleza natural e a consciência ecológica andam juntas. Visitar a Praia do Rosa é mergulhar nessa história de Carijós, pescadores e surfistas, mas é também abraçar um compromisso com o mar e com as baleias. É por isso que a gente luta tanto para manter a nossa natureza viva e preservada.
Vem sentir essa vibração e fazer parte dessa história!